críticas

Festival Worldtronics (BERLIN 2008) Arto Lindsay
N-1 e seu Jardim das Gambiarras Chinesas (RIO 2009) Mauro Costa

Duo Nmenos1: O Cultivo do Jardim Elétrico (SP 2009) Valério Fiel
Assombrações em Performance (RIO 2009) Vivian Caccuri


ARTIGO

Jardim das Gambiarras Chinesas: uma prática de montagem musical e bricolagem tecnológica. II Encontro Internacional de Música e Arte Sonora, Juiz de Fora, 2011.


ENTREVISTA

N-1 e as Gambiarras Chinesas (ONLINE AGO 2009) RRAURL

Festival Worldtronics

Arto Lindsay - Berlin 2008


A loop machine does not care whether the material comes from the first or the seventh world. The set-up used by Alexandre Fenerich and Giuliano Obici, who together make up N-1, is an information relay that playfully rebels against common listening habits, recombining the sound in semi-aleatoric, semi-organised improvised processes. They represent a pure, uncompromising form – Brazil's contribution to a globalised electro-science.


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Site Worldtronics 2008: Take Brazil for instance: curator Arto Lindsay, the lively avant-garde legend and producer of Brazilian pop stars such as Caetano Veloso and Marisa Monte, has compiled a programme that has nothing to do with Baile Funk or a loungey café ambience, but consists of Maracatu, brass bands and abstract noise.


N-1 e seu Jardim das Gambiarras Chinesas

Mauro Costa - Rio de Janeiro 2009


Da série de concertos Noisescapes, no Espaço Cultural Sergio Porto, vamos tratar especialmente de uma peça, apresentada na noite de 6 de junho de 2009  - Jardim das Gambiarras Chinesas – do N-1 (Alexandre Fenerich e Giuliano Obici). No mesmo programa, o menu de entrada trazia Desvio, vídeo de Rebeca Rosel e música de Alexandre Fenerich (2009), e Greyscale, outro vídeo de Rebeca Rasel, com música de Fenerich (2008).

o trabalho de Fenerich e Obici, explorando os espaços da intermídia – interação entre mídias diversas como a música eletroacústica, em gravação ou especialmente, ao vivo, palavras faladas ou cantadas, instrumentos musicais, dança, vídeo, coloca-se numa tendência atual e em expansão da música experimental. Fenerich e Obici estão, sem dúvida, no primeiro plano entre os criadores desta tendência, no momento.

O caso do Jardim, no entanto, impressiona pelo rigor e paradoxo, abrindo varias camadas de leitura na sua construção e execução. Para começar, a máquina montada para a execução da obra, com o caráter de uma “instalação”: uma mesa comprida apinhada com maquinetas, gadgets, duas vitrolinhas ordinárias, bonequinhos tocando tambor, patinhos, bichinhos de dar corda, gravadores portáteis antigos,  radinhos transistores quebrados – segundo, os autores, na apresentação, “todo o lixo de gadgets chineses, encontrados em algum deposito de lixo de camelôs de Xangai” – mais alguns microfones, quatros pequenas câmeras de vídeo para computador  e dois laptops (as únicas máquinas “sérias”, por onde  toda a obra será administrada). Ao fundo, uma tela de projeção de vídeo de sala de aulas.

A obra: todas essas coisas produzem ruídos, noise, e a composição, ao vivo, passeia por todos os seus potenciais, as vitrolas com os braços presos por esparadrapos, rodando na mesma linha de discos, como scratches repetidos; objetos, chapinhas, fichas às vezes  jogados em cima dos discos; os bonequinhos de dar corda andando, pulsando em cima de pequenas telas de ressonância; sons, estática e vozes distorcidas saindo dos radinhos quebrados, pedaços de gravações rouquenhas dos gravadores velhos; palavras, uma e outra frase tocada na flauta por Fenerich (originalmente flautista) ao microfone.

Tudo isto, cujo resultado sonoro, ao mesmo tempo absurdo, engraçado e saboroso, é sublinhado em seus efeitos pela continua transmissão em vídeo em p&b, em tela inteira, dividida em duas ou em quatro imagens,  acompanhando passo a passo o que os dois músicos estão fazendo, com as caras dos objetos, gadgets, bichinhos, toda a tralha, em closes, manipulada sobre a mesa. 

O resultado é absolutamente fascinante, impossível desviar atenção por um segundo – fascinante pelo absurdo e pelo virtuosismo dos operadores atuando ao mesmo tempo na construção sonora e no acompanhamento vídeo-visual da “obra se fazendo”.

Várias camadas de leitura das operações ao vivo, várias leituras conceituais do que significa viver cercado por esse lixo, transbordante, excessivo, de tecnologia e besteira produzida em massa, exuberante e louca como a China, e da qual se pode fazer este uso, comparável à reciclagem de lixo que “nos salva da poluição”, ao mesmo tempo matéria para uma produção hiper-realista, hiper-inovadora e instigante de ruído-e-imagem. Obra pobre-rica paradoxal e ápice da noisemusic inter-mídia que já pude ver-ouvir.


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Mauro Sá Rego Costa é professor adjunto na FEBF/ UERJ; Coordenador da Oficina Híbridos – Mídia e Arte Contemporânea - do LABORE – Laboratório de Estudos Contemporâneos – UERJ - http://www.polemica.uerj.br -; Coordenador do Laboratório de Rádio UERJ/Baixada; Professor do Mestrado em Educação, Cultura e Comunicação / FEBF/UERJ - [email protected]

Duo Nmenos1: O Cultivo do Jardim Elétrico

Valério Fiel da Costa


Está acontecendo hoje no campo da música experimental um fenômeno notável e que aos poucos vai ganhando proeminência nas discussões acadêmicas e nos espaços reservados à prática musical estrita. Jovens e criativos compositores/ performers, guiados mais pelo instinto que pelas velhas  e objetivas questões pertinentes à arte, acabam ocupando espaços reais dentro do território da música, angariando a simpatia de um público crescente de perfil multifacetado e, graças à internet, localizado em todo lugar e lugar nenhum.


Aquela camada de enunciados que costumava nortear iniciativas artísticas no campo da velha e carcomida vanguarda acaba cedendo espaço para o reinado dos objetos. Interessa-se cada vez mais pelas coisas à maneira como estas acontecem, pela maneira como são propostas em termos concretos, pelos gestos presentes no ato de performance, pela beleza própria daquilo que ora se apresenta diante de nós. O artista não está mais enquadrado numa estética coletivista, num movimento, numa ideologia clara. Cada projeto acaba adquirindo traços próprios descolados de a priores e somos obrigados a lê-los como singularidades: apreendemos os projetos pois possuem um comportamento que de alguma maneira é contrastante diante de um fundo de complexidade outra. O interesse migra para essa medida de contraste e o artista consegue se destacar, não pela ruptura com algo estabelecido, nem pela primazia técnica em relação às exigências da linguagem, mas simplesmente por ter escolhido um caminho todo seu e ter assumido, sem concessões, o cultivo do mesmo.

O duo Nmenos1 formado pelos músicos Alexandre Fenerich e Giuliano Obici é um exemplo flagrante desta tendência aonde cada artista deve assumir o papel de jardineiro. Cultiva-se jardins, investe-se em determinadas plantas, busca-se evitar que outras prevaleçam, cuida-se para que ervas daninhas não proliferem, lida-se com eventos inesperados a todo momento e, por força de uma necessidade específica, por exemplo oferecer a alguém um fragmento daquela beleza, daquele trabalho, em forma de um buquê cuidadosamente arranjado, surgem projetos, diretrizes e todo tipo de diálogos com o mundo externo.

Ocorre que, no caso do Nmenos1, o próprio jardim tornou-se objeto e mesmo espaço de performance. Os músicos, rodeados de pequenos e belos brinquedos sonoros, novelos de cabos multicoloridos e circuitos eletrônicos, se deixam enxergar em pleno cultivo, mãos negras de terra sonora, plantando plugues aqui e acolá, lidando com sons daninhos cuja re-territorialização eventual dá-se pelo engenhoso e bem executado recurso ao sulco fechado em discos de vinil: dispositivos especialmente preparados, com pequenos objetos colados, brinquedos barulhentos, obstáculos mil no caminho das agulhas, para que todo som, mesmo o mais desgarrado de todos, possa compor-se, magnetizado pela repetição em looping, ao fluxo sonoro geral.


Diante de tal complexidade, o duo Nmenos1 parece em casa, improvisando livremente buscando seguir os caminhos para os quais os objetos sonoros os levam, funcionando como catalizadores, mais que impositores na medida em que atuam como filtros preocupados, não em conter energias desgarradas que se insinuam no contexto, mas em potencializá-las buscando, em seguida, dosar o quanto se queira manter à deriva.

Complementando o contexto, diminutas câmeras de segurança passeiam dentro do jardim eletrônico desvendando por meio de imagens, os detalhes daquela verdadeira cidadela de dispositivos por onde passeiam mãos enormes plugando e desplugando, ligando e desligando, pondo em movimento e freiando, enfim, desempenhando uma bela dança, inacessível, se víssemos apenas de longe a inusitada cena.


O Nmenos1 destaca-se, como todo evento singular, como todo acontecimento genuíno, pelas suas próprias idiossincrasias. Tudo é raro nesta performance, desde a escolha dos objetos, até o resultado visual geral, passando pelas camadas sígnicas que diferenciam internamente aquilo que pertence a Giuliano dàquilo que pertence a Alexandre, gerando conflitos deliciosos entre as abstrações de um e a tendência à colagem de outro. A coisa acaba como uma máquina que se desliga aos poucos cancelando ação por ação, revelando camadas sonoras ocultas no processo, inaugurando como que uma coda de características próprias. É como um sonho do qual acordamos sem alarde, pre-requisito para que nos lembremos dele nos seus mínimos detalhes, e saímos da sala de concerto percebendo melhor o potencial e beleza das pequenas coisas barulhentas do dia-a-dia..


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Valério Fiel da Costa professor de música da Universidade Federal da Paraíba, compositor, pesquisador e performer, Doutor em composição pela UNICAMP. [email protected]

Assombrações em Performance

Vivian Caccuri Ago 2008


Me apoiar em antigas definições do que é "música experimental" para descrever o trabalho do duo N-1, não vai me ajudar em nada. Aliás, pensar em N-1 como um fenômeno puramente musical é um erro ainda maior para o que quero dizer. Gostaria de pensar o N-1 como espécime de uma nova geração de artistas que já tiveram a maior parte de sua juventude e formação positivamente contaminada pelas tecnologias e pelos meios de comunicação digital. Para a "Generation Y" ou "iGeneration", a tecnologia não é um alienígena ao qual pouco a pouco vamos nos acostumando. Para essa geração (da qual também faço parte) a tecnologia já é algo natural, para não dizer óbvio.

Essa relação - por que não dizer - íntima com a tecnologia, permite que Giuliano Obici e Alexandre Fenerich desenvolvam uma postura artística diferenciada e um distanciamento crítico necessário para se criar uma arqueologia semi-nonsense de objetos de consumo. Com essa postura, eles manipulam relações conceituais entre coisas e sonoridades, sempre na busca de construir pontes temporárias, mutáveis e fragmentadas entre o mundo das coisas plásticas e o mundo dos estranhamento sonoros. Sem apegos, sem teses.

Na composição dessas relações interessantes e engraçadas, N-1 comporta-se quase como uma assombração - ou melhor - uma espécie de Exu. Esse espírito criativo sai por aí, possuindo seus semi-instrumentos musicais, incorporando seus discos de vinil decorados com brinquedos, animando suas latas de leite em pó histéricas e concretizando-se como simpáticas microfonias que rondam suas performances como para dizer "eu existo aqui e agora, mas talvez não depois".

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Vivian Caccuri é artista plástica trabalhando com som, performance e tecnologias. É mestre em Música pela UFRJ.

Entrevista



RRAURL 17.08.09 14:15

N-1 faz um som performático e experimental, explorando pequenos ruídos de brinquedos, latas, microfonias e LPs que rodam em vitrolas, decorados/modificados com moedas e pequenos bonecos. Entrevistei-os por email para conhecer mais de seu trabalho e seu público.

N-1 - Ahab (mp3)

Ataque-Ataque: Antes de começar a perguntar sobre o N-1, queria saber do seu público: para quem vocês estão tocando ultimamente? Quem assiste aos shows? 

N-1: Quem nos acompanha é um público interessado em arte contemporânea, arte sonora ou música experimental. Desde que montamos o duo, em 2007, temos tocado em vários tipos de lugares: museus, galerias de arte, festivais de música contemporânea, bares, salas de concerto e uma loja de discos. Tocamos até em um festival específico sobre música eletrônica do mundo em uma edição focada que contemplou a música brasileira - o Worldtronics em Berlin 2008.

Aqui no Brasil, existem alguns lugares que mantém programação constante para esse tipo de proposta. Por exemplo, nós temos nos apresentado no Ibrasotope em São Paulo  - espaço este que consideramos como nossa "casa"-, e o Plano B no Rio.

Mas nossos primeiros shows foram ligados a arte contemporânea. O primeiro foi na Galeria Emma Thomas e o segundo foi no projeto OidaRadio, no Paço das Artes, em São Paulo. Mais tarde tocamos no FILE, que não é exatamente um festival focado apenas em música contemporânea ou experimental, mas em arte eletrônica em geral – fato que mostra que há mesmo um interesse ou uma curiosidade, ao menos por parte  de uma parcela das pessoas ligadas a arte contemporânea, por uma proposta como a nossa. 

Ataque-Ataque: E o que vocês acham que acrescenta para o N-1 se apresentar em um lugar de arte contemporânea, como o MIS São Paulo? 

N-1: Nnosso trabalho tende ser mais aceito entre os espaços de arte contemporânea que no ambiente musical, que é quase sempre muito preso ao peso da tradição. O acolhimento de nosso trabalho pelo do MIS e por outras instituições ligadas à arte contemporânea também revela um lugar cada vez mais consolidado, nas últimas décadas, da arte sonora que tem se afirmado como uma vertente significativa e interessante para pensar e experimentar sonoramente.  Temos mesmo dúvida se o que fazemos seja música; talvez nosso trabalho esteja muito mais próximo da arte sonora. 

Ataque-Ataque: Essa é para pensar mais: no que vocês se acham antigos e no que vocês acham novos? 

N-1: Sabe que não nos preocupamos em quê somos antigos ou novos. Tentamos não ficar com a obsessão que há em torno do ineditismo em arte de forma geral. Aquela fala “mas isso já fizeram” não nos preocupa. Muito do que propomos já existe com certeza, se formos pensar bem não inventamos nada novo. Mas claro que não é só isso, porque o arranjo desses elementos, o jeito de combiná-los geram singularidades.  

Bolamos um set com uma mesa cheia de parafenalhas que microfonamos e filmamos sua manipulação. Esse set surgiu por uma preocupação pela cumplicidade visual que sempre existiu entre o instrumentista e o público e que na música eletrônica e eletroacústica se perdeu. A idéia surgiu na tentativa de dar conta de uma angústia comum que existe na cultura da laptop-music onde a postura corporal do intérprete, que fica toda parte do tempo parado apertando botões, é de fato bem desinteressante. Esse trabalho nasce de um contraponto com a música eletroacústica, onde não se vê como os sons foram feitos, porque foram gravados anteriormente.

Ainda sobre o velho e o novo, podemos pensar no improviso, que é algo antigo e que assumimos como elemento de nosso trabalho. Para nós, o improviso é uma estratégia de performance, que nos obriga estar atentos durante os shows. Temos a preocupação por escapar de uma sonoridade “bem tratada”, sem ruídos, de alta definição. As tecnologias digitais tendem a este tipo de situação sonora clean, que nos parece monótona. A maior parte de nosso trabalho no campo digital está em escapar desta limpeza e de sujar o som de procedimentos estranhos às técnicas digitais. Também adicionamos uma quantidade enorme de instrumentos acústicos e elétricos – muitos não bolados para serem instrumentos musicais. Isso tudo gera muito estranhamento aos ouvidos, e nos propomos a escutá-los com a devida atenção, de forma que eles se tornem tanto nosso quanto nossos dedos. Uma boa parte de nosso trabalho consiste extrair disso tudo algo que nós gostamos.